No primeiro semestre de 2026, um grupo de alunas de mestrado da Sorbonne Université passou um semestre no exterior na Universidade de São Paulo (USP), mergulhando na pesquisa em câncer em alguns dos principais laboratórios do C2PO. Elas conversaram com o C2PO sobre suas experiências na USP.
Dando continuidade à parceria de mobilidade acadêmica entre a Sorbonne Université, a Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e o Comprehensive Center for Precision Oncology (C2PO), as alunas Blanka Kelecsenyi (Hungria), Emma Komersová (República Tcheca), Julia Young (Polônia/EUA) e Veneta Petkova (Bulgária) concluíram seus estágios em instituições como o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e o Instituto de Ciências Biomédicas (ICB-USP), combinando trabalho prático em laboratório com disciplinas ministradas por docentes do C2PO.
Atuando em áreas como engenharia de vetores virais, imunologia tumoral e sinalização celular do câncer, as alunas aprimoraram suas habilidades em delineamento experimental, análise de dados e comunicação científica. O C2PO perguntou ao grupo como o período na USP moldou sua formação e suas vidas. A seguir, elas compartilham suas experiências no laboratório, em sala de aula e na própria cidade de São Paulo.
Blanka Kelecsenyi – Programa de Biologia do Câncer
O semestre que passei na USP foi um momento decisivo tanto para minha carreira acadêmica quanto profissional. Meus mentores no Laboratório de Vetores Virais do ICESP, o Prof. Bryan E. Strauss e a Dra. Fernanda Antunes, me deram uma orientação excelente, permitindo que eu aprimorasse meu pensamento crítico e minha capacidade de planejar experimentos robustos. Todos os membros do laboratório foram incrivelmente gentis, prestativos e pacientes, criando um ambiente em que me senti acolhida desde o início. No começo do estágio, recebi treinamento em várias áreas, desde habilidades técnicas e análise de resultados até como apresentar os resultados obtidos de forma eficiente. Esse período intenso de treinamento foi extremamente útil, pois ao final eu já conseguia trabalhar de forma independente no laboratório, o que aumentou minha confiança em minhas próprias capacidades. Além do trabalho de bancada, participei de aulas instigantes, nas quais discutíamos alguns dos avanços mais recentes na pesquisa em câncer e imunologia. Uma aula em especial foi marcante: nosso journal club com o Prof. Roger Chammas. Apenas mais quatro alunas visitantes participavam dessa disciplina, o que criava um grupo pequeno, facilitando as perguntas e permitindo discussões aprofundadas sobre temas instigantes com um especialista na área.
Além disso, meu tempo na USP foi fundamental para meu desenvolvimento pessoal. Esse intercâmbio me permitiu mergulhar de verdade na cultura brasileira. Aprender sobre as tradições locais e as diferenças em nossos estilos de vida, e vivenciar o calor humano das pessoas ao meu redor, tanto dentro quanto fora do laboratório, teve um impacto enorme sobre mim. Ao longo do caminho, construí amizades significativas com colegas e alunos, que espero manter no futuro. Assim, estudar na USP não apenas me ajudou a me desenvolver como cientista, mas também como pessoa, deixando-me memórias que vão durar a vida toda.
Emma Komersová – Programa de Imunologia
Meu semestre no exterior foi muito divertido e estimulante. Na USP, tivemos acesso a professores excelentes e a excelentes recursos da universidade, tanto dentro quanto fora do laboratório. São Paulo é uma cidade cheia de cultura, vida noturna e pessoas gentis; viver lá como jovem foi enriquecedor e inesquecível.
Estagiar no Laboratório de Vetores Virais, sob a orientação do Dr. Bryan Strauss e da Dra. Fernanda Antunes, foi uma ótima incursão no universo dos vetores lentivirais e adenovirais. Construir essas ferramentas terapêuticas me inspirou a pensar de forma mais criativa sobre como enfrentar o câncer. A Dra. Antunes ofereceu uma orientação próxima e criou um ambiente seguro e agradável para aprender. Os membros do laboratório foram extremamente gentis e acolhedores, e investiram no meu crescimento e bem-estar.
As aulas foram particularmente desafiadoras e me impulsionaram a pensar como cientista; apresentar artigos publicados recentemente me permitiu praticar oratória e raciocínio científico, ao mesmo tempo em que me mantinha atualizada na fronteira do conhecimento em câncer e imunologia.
Agradeço ao Dr. Chammas, ao Dr. Strauss, à Dra. Antunes e à Dra. Andrade pela orientação e pelo apoio.
Julia Young – Programa de Imunologia
Os seis meses que passei na USP e em São Paulo como um todo me tiraram continuamente da minha zona de conforto, uma experiência que me fez crescer enormemente tanto na vida acadêmica quanto pessoal.
Tive a sorte de fazer parte de um grupo de laboratório incrível sob a tutela da Profa. Ana Lepique, no ICB. A recepção calorosa, a abertura e a confiança depositadas em mim, apesar de eu ter pouca experiência prévia em laboratório, fizeram com que ir ao laboratório fosse um prazer e transformaram cada dia em uma oportunidade de aprendizado. Meus colegas de laboratório logo se tornaram meus amigos, e passar tempo com eles fora do laboratório me ajudou a conhecer a cidade, o idioma e a cultura em um nível pessoal. Gostei muito de trabalhar no campus principal da USP (apesar do deslocamento mais longo), pois isso me fez sentir parte da cidade. As disciplinas ministradas pelo Prof. Chammas me permitiram crescer como comunicadora científica, tanto na escrita quanto na fala. Poder praticar a apresentação de artigos para pessoas com diferentes formações científicas e níveis variados de domínio do idioma me fez refletir mais sobre como abordar a comunicação científica de forma acessível. Além das aulas que tivemos no ICESP, também pude participar dos immunowebinars semanais promovidos pela USP, com um leque diverso de pesquisadores e temas em imunologia, o que ampliou minha visão da área.
Ter que navegar por uma cultura e uma cidade completamente estrangeiras em um idioma que não dominava aprimorou minhas habilidades linguísticas e minha competência cultural, habilidades que levarei para minha vida profissional e pessoal. Além disso, sinto que realmente cresci como pessoa durante esse período e provei a mim mesma que consigo enfrentar muitos desafios. Meu semestre em São Paulo foi uma experiência única na vida, pela qual sou grata por ter me arriscado.
Agradecimentos especiais à Profa. Lepique, ao Prof. Chammas, à Dra. Fabiane Colunna, à Ana Luisa Butarelli, à Isis Mello e à Larissa Marques pela orientação e pela hospitalidade.
Veneta Petkova – Programa de Imunologia
Meu intercâmbio em São Paulo me formou tanto como cientista quanto como pessoa. O Prof. Roger Chammas e a Dra. Luciana Nogueira de Sousa Andrade foram mentores incríveis que, por meio de sua orientação e apoio, me ajudaram a desenvolver uma independência que sei que será indispensável no futuro. No laboratório, eu não era simplesmente instruída a seguir ordens; era incentivada a demonstrar meu conhecimento, tomar iniciativa e participar de diferentes etapas do processo científico. Essa confiança me impulsionou a acreditar mais nas minhas próprias ideias e contribuições.
Também estive cercada de pessoas genuinamente apaixonadas por suas pesquisas e sempre dispostas a discutir ideias ou ajudar com minhas dúvidas. As reuniões semanais do laboratório eram algo que eu aguardava com expectativa, pois havia um forte senso de pertencimento a uma equipe em que todos podiam contribuir. No início, eu tinha receio de me manifestar, mas esse ambiente me ensinou que até a pessoa menos experiente pode trazer algo valioso para uma discussão, e que errar faz simplesmente parte do aprendizado.
Uma das minhas experiências favoritas foi a disciplina de Câncer, na qual analisávamos e apresentávamos artigos de grandes descobertas recentes ao lado de médicos de diferentes formações. As diferentes perspectivas deles frequentemente traziam ideias inesperadas para a discussão e me mostraram o valor de abordar uma questão sob múltiplos ângulos. O Prof. Roger Chammas também me mostrou a importância de pensar fora da caixa e de olhar além da pergunta imediata para entender o quadro geral.
Viver em São Paulo me impulsionou ainda mais a me tornar independente e a me abrir para experiências desconhecidas. O Brasil foi incrivelmente acolhedor, e sou especialmente grata pelas pessoas que conheci no laboratório, que ao final da minha estadia já se tinham tornado amigas. Fomos juntas à Festa Junina, comemos no Bandejão e participamos de festas do laboratório, fazendo com que São Paulo se tornasse muito mais do que apenas um lugar onde eu estudava. Depois do meu tempo no Brasil, o mundo parece um pouco menos estranho e muito mais aberto do que antes.



