Pesquisadores membros do Comprehensive Center for Precision Oncology (C2PO) estão entre os finalistas do XVII Prêmio Octavio Frias de Oliveira, realizado pela Folha de S. Paulo em parceria com o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp).
O prêmio conta com três categorias. Nas categorias Pesquisa em Oncologia e Inovação Tecnológica em Oncologia, cientistas podem inscrever trabalhos publicados ao longo do ano anterior, ou, no caso de Inovação Tecnológica, patentes depositadas no mesmo período. A terceira categoria, Personalidade do Ano, é escolhida por um júri especializado e revelada na cerimônia de premiação, no dia 12 de agosto de 2026.
O C2PO tem cinco membros concorrendo – os trabalhos foram realizados por grupos de pesquisa que têm os membros entre os participantes.
Categoria Pesquisa em Oncologia
Na categoria Pesquisa em Oncologia, o Prof. Dr. Eduardo Magalhães Rego (FMUSP, Icesp) é um dos autores do trabalho High mtDNA content identifies oxidative phosphorylation-driven acute myeloid leukemias and represents a therapeutic vulnerability (Alto conteúdo de DNA mitocondrial identifica leucemias mieloides agudas impulsionadas pela fosforilação oxidativa e representa uma vulnerabilidade terapêutica, em tradução livre), publicado na revista Signal Transduction and Targeted Therapy.
O estudo identificou que, em pacientes com leucemia mieloide aguda, o elevado conteúdo de DNA mitocondrial é um biomarcador que indica resistência tumoral à quimioterapia. A descoberta ajuda a prever quais pacientes terão resistência à quimioterapia, ajudando no planejamento de um tratamento mais eficaz. Além disso, a descoberta representa uma vulnerabilidade biológica que pode ser explorada no desenvolvimento de novas terapias.
A hipótese central do trabalho parte de uma observação biologicamente fundamental: a mitocôndria é o principal sítio da fosforilação oxidativa (OXPHOS), e as células leucêmicas exploram essa rota energética para sustentar proliferação e resistência à quimioterapia. O estudo mostra que o conteúdo de DNA mitocondrial (mtDNAc) distingue subgrupos de pacientes cujas células leucêmicas têm dependência aumentada de OXPHOS. Em termos práticos, isso significa que a quantificação do mtDNAc é um marcador simples e reprodutível — passível de incorporação à rotina laboratorial — capaz de identificar pacientes em estado metabólico “OXPHOS-elevado” associados a maior taxa de recorrência da doença. Os resultados sugerem que a bioenergética tumoral não é um detalhe acessório, mas um determinante funcional do comportamento leucêmico. Do ponto de vista terapêutico, o estudo converte descoberta biológica em oportunidade clínica. A inibição do complexo I mitocondrial — por meio da metformina, medicamento barato e amplamente disponível — reverteu a resistência à quimioterapia e potencializou a ação de medicamentos antileucêmicos, como o venetoclax. Esse achado reforça a ideia de que modular a forma como a célula leucêmica produz energia pode restaurar a sensibilidade ao tratamento. – Prof. Dr. Eduardo Magalhães Rego
Categoria Inovação Tecnológica em Oncologia
Na categoria de Inovação Tecnológica em Oncologia, há três trabalhos com membros do C2PO concorrendo.
O Prof. Dr. Valtencir Zucolotto (IFSC-USP) concorre com o trabalho Nose-to-Brain Delivery of Biomimetic Nanoparticles for Glioblastoma Targeted Therapy (Administração nasal de nanopartículas biomiméticas para terapia direcionada do glioblastoma, em tradução livre), publicado na revista ACS Applied Materials & Interfaces.
A inovação consiste no desenvolvimento de nanopartículas biomiméticas capazes de transportar medicamentos quimioterápicos para o tratamento de glioblastoma – um dos cânceres de cérebro mais agressivos – pela via nasal, o que permite que o tratamento passe por menos barreiras e chegue de forma mais direta ao cérebro. Essa nova via pode ser mais eficaz do que a via oral, exigir doses menores de medicamentos e acarretar menos efeitos colaterais.
O glioblastoma é um dos tipos mais agressivos de câncer no cérebro e, até hoje, os tratamentos disponíveis têm eficácia limitada. Nossa equipe do grupo de Nanomedicina (GNano/USP) desenvolveu uma tecnologia inovadora, baseada em entrega inteligente via nanossistemas biomiméticos, capaz de levar o fármaco temozolomida diretamente ao cérebro por meio da administração nasal, evitando procedimentos invasivos. As nanopartículas biomiméticas foram revestidas com componentes de células do próprio tumor, permitindo reconhecer e atingir as células cancerígenas com maior precisão, através de adesão homóloga. A tecnologia reduziu o crescimento do tumor, diminuiu a formação de novos vasos sanguíneos que alimentam o câncer, e promoveu maior eficácia de entrega do fármaco nas células tumorais. O trabalho é inédito e abre uma via importante para terapias mais eficazes e menos agressivas para pacientes com glioblastoma. – Prof. Dr. Valtencir Zucolotto
A Profa. Leticia Veras Costa Lotufo (ICB-USP) e o Prof. João Agostinho Machado Neto (ICB-USP) concorrem com o trabalho Cephalochromin Effects in Triple-Negative Breast Cancer Cells: Apoptosis Induction and Modulation of Survival Pathways (Efeitos da cefalocromina em células de câncer de mama triplo-negativo: indução de apoptose e modulação de vias de sobrevivência celular, em tradução livre), publicado no periódico Journal of Natural Products.
Os pesquisadores descobriram que, em testes in vitro, a cefalocromina – um composto natural derivado de fungos – foi capaz de induzir a morte celular de células cancerosas em linhagens de câncer de mama, especialmente o triplo-negativo, um subtipo mais agressivo. Além disso, a substância se mostrou eficaz como tratamento adjuvante à quimioterapia, aumentando o efeito de medicamentos quimioterápicos já utilizados.
Este trabalho destaca o enorme potencial da biodiversidade brasileira como fonte de novas moléculas bioativas para o desenvolvimento de terapias inovadoras contra o câncer. A cefalocromina, um composto natural produzido por fungos endofíticos, foi isolada de um microrganismo associado a uma planta nativa do Brasil, evidenciando como a riqueza biológica do país pode contribuir para a descoberta de novos candidatos a fármacos. Em nossos estudos, demonstramos que essa substância apresenta atividade expressiva contra células de câncer de mama triplo-negativo, um dos subtipos mais agressivos da doença e que ainda possui opções terapêuticas limitadas. Além de induzir a morte das células tumorais por diferentes mecanismos, a cefalocromina reduziu a expressão da survivina, uma proteína diretamente relacionada à resistência ao tratamento e ao pior prognóstico dos pacientes. Outro resultado particularmente relevante foi a capacidade da substância de potencializar os efeitos de quimioterápicos amplamente utilizados na clínica, como a doxorrubicina e o paclitaxel, abrindo perspectivas para estratégias de tratamento combinadas mais eficazes e potencialmente menos tóxicas. Embora os resultados ainda sejam pré-clínicos, este estudo reforça a importância de investir na pesquisa básica e na conservação da biodiversidade brasileira, que representa um patrimônio científico de valor inestimável e uma fonte estratégica para a inovação em medicamentos e para o enfrentamento de grandes desafios da saúde pública. – Profa. Dra. Leticia Veras Costa Lotufo e Prof. Dr. João Agostinho Machado Neto
Ainda, a Dra. Rossana Verónica Mendoza Lopez (Icesp) participou do trabalho Randomized trial of autologous ovarian graft to preserve ovarian function in young women undergoing pelvic radiotherapy for cervical cancer (Ensaio clínico randomizado de enxerto ovariano autólogo para preservar a função ovariana em mulheres jovens submetidas à radioterapia pélvica para câncer do colo do útero, em tradução livre), publicado no periódico European Journal of Surgical Oncology.
Trata-se de uma abordagem para preservar a função hormonal dos ovários de mulheres jovens submetidas a à radioterapia para tratamento de câncer cervical. Um dos ovários é retirado antes do tratamento, e pequenos enxertos são implantados na coxa, de modo que a estrutura não seja afetada pela radiação e continue funcional. As pacientes que receberam a intervenção mantiveram a produção de estrogênio, e tiveram menos efeitos colaterais resultantes da perda dos ovários, notadamente o início precoce da menopausa.
A radioterapia para tratamento do câncer de colo de útero localmente avançado (LACC) causa insuficiência ovariana prematura (IOP) em jovens, trazendo todos as consequências da menopausa em idade tão jovem. O presente ensaio clínico teve objetivo avaliar a funcionalidade endócrina da técnica de implante autólogo de tecido ovariano fresco no subcutâneo em mulheres com menos de 35 anos e LACC. Dezenove participantes foram incluídas, 10 no grupo controle (C) e 9 no grupo intervenção (I). Todas as pacientes do grupo C apresentaram IOP, enquanto 85% do grupo I apresentou níveis hormonais compatíveis com menacme 6 meses após o tratamento. Realizamos a análise dos dados e o resultado foi interessante, porque o estudo avaliou a qualidade de vida das pacientes, que mostraram efeitos positivos na função física, na presença de dor, e no impacto da capacidade das mulheres para trabalhar. – Dra. Rossana Verónica Mendoza Lopez



